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quinta-feira, 21 de abril de 2016

A insustentável ganância do ser


A
pós um período de hiato para cuidar de assuntos particulares, retomei minhas leituras de notícias interessantes sobre finanças e, quase sem querer, dei de cara com o anúncio de um dos mais mirabolantes casos de esquema Ponzi da história recente. Trata-se da MMM – Mavrodi Mondial Moneybox que, junto com seu fundador, o matemático russo Sergey Mavrodi, tiveram suas histórias retratadas no filme The PyraMMMid, de 2011. O sucesso de Mavrodi se sustenta no desejo insaciável do ser humano de enriquecer rapidamente.
Épocas de crise e retração econômica são ideais para fazer com que as pessoas busquem formas alternativas de fugir da dura realidade que as cerca. Podemos notar isso aqui mesmo no Brasil, quando a Mega Sena oferece prêmios milionários: a arrecadação sobe assustadoramente, mesmo quase todos tendo a certeza íntima de que não serão contemplados. Tudo em nome de uma frágil esperança de que a sorte lhes sorrirá.
Nessa mesma esteira, os esquemas de Ponzi, conhecidos popularmente como “pirâmides”, apelam para o órgão mais fraco do corpo humano: o bolso. E com um adicional tentador: não depender da sorte para receber um polpudo quinhão de seus investimentos. André Massaro escreveu neste artigo um breve resumo sobre as peripécias da MMM, portanto sugiro a leitura. Aqui desejo fazer um contraponto ao que se pode ler maciçamente na Internet sobre o caso.
Como dissemos acima, épocas de vacas magras são pródigas em esquemas fraudulentos, sejam eles “regulamentados” ou não. No caso de Mavrodi, a dissolução da União Soviética era recente – a MMM foi criada na década de 90 – e a economia local vivia uma instabilidade comparável ao Brasil dos anos 80. Em suma, campo fértil para que pequenos investidores procurassem qualquer anúncio de enriquecimento fácil como tábua de salvação para os tempos bicudos.
Sergey Mavrodi reúne características fundamentais que compõem tanto o grande estadista como o grande fraudador: inteligência, habilidade com as palavras e faro para as oportunidades. Tanto isso é verdade que ele, apesar de condenado por fraude em seu país de origem, cumpriu a sentença, foi solto e permanece atuando no mesmo negócio em quase todos os países do mundo. E o mais importante: sofisticou o negócio, de maneira a não poder ser pego tão facilmente. Vide o artigo do Massaro.
No manifesto que é parte integrante dos sites da MMM no mundo, intitulado convenientemente de “Ideologia”, o matemático russo usa dos mesmos argumentos oferecidos pelos que advogam a Teoria da Conspiração e desfia críticas sobre o capitalismo e o sistema financeiro mundial. Tais argumentos, entretanto, são factíveis e altamente plausíveis, ainda que contrariem o cânone do mercado. No fundo e por séculos de história, registrados inclusive em documentários e reportagens investigativas dos principais meios de comunicação do Ocidente, sabe-se que o sistema financeiro é uma gigantesca fraude. A diferença é que ela é oficial, legal e consuetudinariamente aceita. Ponto para Mavrodi.
Naturalmente, sistemas alternativos – leia-se extraoficiais – de finanças que prosperam sofrem um dos dois tipos de situações: ou passam a ser controlados pelo Estado, ou são perseguidos por ele. Mesmo o Prêmio Nobel Mohammad Yunus, criador do primeiro sistema de microcrédito do mundo, o Grameen Bank, passou a ter problemas com o governo de Bangladesh justamente pelo sucesso do seu trabalho. No caso do MMM em sua primeira concepção, a divulgação dos dividendos projetados, muitas vezes astronômicos, pela empresa incomodou o governo de Boris Yeltsin, que passou a proibir tal divulgação. Isso levou o esquema a ser questionado e os investidores passaram a somente retirar dinheiro, o que levou à quebra da pirâmide e, consequentemente, à perda de cerca de 10 bilhões de rublos - parte desse dinheiro era composto de economias de uma vida inteira de diversos aposentados, muitos dos quais acabaram suicidando.
Enquanto houver no ser humano a vã esperança de que poderá enriquecer rapidamente, sem esforço ou disciplina espartana, haverão espertalhões que farão fortuna no lugar deles. Mavrodi possui uma inteligência fora do comum, mas poderia utilizá-lo de maneira mais produtiva: a ideia da MMM não é ruim, quando analisada mais a fundo e levando em consideração sua ideologia libertária, porém precisa de maior fundamentação, de uma maneira de não desmoronar ao mais leve tremor da base. Talvez a experiência das moedas alternativas, como o Bitcoin, ajudem nesse quesito. A propósito, Mavrodi declara que a força da MMM foi a causadora da valorização exponencial do Bitcoin. Eu penso que foi justamente o contrário.
Qual a lição para o educado financeiramente? Todo tipo de investimento deve ser analisado, investigado, estudado e, se possível, experimentado, inicialmente com bastante parcimônia. Isso porque sempre é possível obter rendimentos polpudos justamente onde ninguém mais acredita que irá obtê-los. Nadar em mares desconhecidos ou contra a corrente ajuda a fortalecer os músculos do bolso e da mente. Somente estudando e experimentando é que podemos dizer se algo serve ou não para nós mesmos.
Sucesso a todos!