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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Cyborgs, Homo ludens e o enriquecimento total

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os últimos dias estava lendo o livro "Mundo Espiritual e o Destino do Homem", de autoria do prof. Masaharu Taniguchi, fundador da Seicho-No-Ie, e um trecho me fez lembrar imediatamente de O Ócio Criativo, de Domenico de Masi, e dos demais autores que o influenciaram, como Paul Lafargue e John Maynard Keynes. Nele, o prof. Taniguchi defende a automação como uma manifestação positiva do progresso que deve permitir ao homem trabalhar por menos tempo, oferecendo assim horas livres para o desenvolvimento da cultura e das artes. Sendo um apoiador inconteste desse pensamento progressista, confesso que quase cheguei às lágrimas... :)
Esta é uma visão do chamado Homo ludens, termo cunhado pelo historiador holandês Johan Huizinga, sendo o jogo, a diversão, o lazer, parte intrínseca e fundamental da própria existência humana. Métodos pedagógicos modernos têm-se debruçado no estudo do uso dos jogos como forma eficaz de aprendizagem e socialização. Para além do descanso e da brincadeira inconsequente, as atividades lúdicas nos formam como seres humanos. Por outro lado, o trabalho aniquila o lúdico que há em nós mesmos e nos reduz a máquinas.
Um estudo da profa. Maria Cecília Ugarte realizado em 2005 mostra os impactos causados pela Revolução Industrial na constituição física dos seres humanos e seus desdobramentos até a chamada Revolução da Informação. Tanto o pensamento primário de que o corpo humano era uma máquina de trabalhar que só precisava de comida e pouco descanso, como a visão mais humanista de o excesso de trabalho deveria ser evitado e a saúde da população precisava ser preservada, vigentes no fim do século XIX, serviam a um só pensamento utilitarista industrial: o de manter a força de trabalho em plena produção.
Na época atual, somos cyborgs, segundo a pesquisadora, não no sentido de humanos com implantes artificiais, mas de corpos acompanhados de equipamentos, vestuário e gadgets da mais alta tecnologia. Para os fins deste meu artigo, consideremos todos os apetrechos dos quais hoje não abrimos mão, como notebooks, smartphones e tablets, todos com acesso permanente à Internet. Como na propaganda de certo modelo de automóvel, sentimo-nos nus, desprotegidos e isolados do mundo quando esquecemos de sair com nosso smartphone...
Somos estimulados a consumir cada vez mais aquilo que produzimos cada vez mais, sob a alegação de manter empregos e gerar renda. Entretanto, chegamos a um momento do desenvolvimento tecnológico em que podemos reproduzir o modo de viver da antiguidade clássica: os gregos, apesar de todo o conhecimento teórico que possuíam, não foram além dos moinhos d'água e algumas outras técnicas que subsistem até hoje. O motivo: simplesmente, era o que lhes bastava. Para eles, não havia mais nada para desenvolver, pois tudo o mais seria fruto de muito trabalho e o trabalho era mal visto pelos povos antigos. Um cidadão livre não deveria, jamais, trabalhar. Por isso o trabalho era relegado aos escravos. A propósito, a palavra trabalho vem do latim tripaliu, ou três paus, um equipamento de tortura comumente utilizado durante o Império Romano para disciplinar os escravos, em geral prisioneiros de guerra.
Mas nossa sociedade judaico-cristã, a fim de atender aos anseios patrimonialistas do então emergente capitalismo burguês, elevou o trabalho como virtude, gerando assim uma massa de escravos assalariados. E estes, conforme meu artigo anterior, nunca enriquecerão. É importante observar, aqui, que aos escravos não é permitido o usufruto do lazer, do desenvolvimento cultural e do ócio. Aos assalariados, também, isso é negado em nome da produtividade, do encarreiramento, da melhoria nos ganhos mensais. Ou seja, aniquila-se o Homo ludens para que subsistam os Homo machina ou, atualmente, os cyborgs, programados para trabalhar por longas jornadas diárias, incentivados pelo alento do consumismo desenfreado.
Com a ascensão da atual Tecnologia da Informação, o trabalho relegado ao homem reduz-se sensivelmente - ou assim deveria ser. Algumas empresas, em que pese toda a possibilidade oferecida pelos modernos softwares, insistem na exacerbação da produção, no pagamento de salário com base na hora trabalhada, no uso da tecnologia como um acessório do trabalhador braçal para que ele produza mais e melhor. E aí reside o seu equívoco: somente quando sai de cena o elemento humano, o arcabouço tecnológico disponível pode ser aplicado em sua plenitude e gerar riquezas como nunca antes sequer imaginadas. Deixemos que as máquinas trabalhem e vivamos o Homo ludens!
Nosso conceito de Enriquecimento Total alinha-se com o do Homo ludens, onde a qualidade de vida anda junta com o enriquecimento. Nossa concepção de riqueza, conforme temos exposto em nossos artigos, vai além do patrimônio e de numerário, abrangendo principalmente o desenvolvimento do ser humano. E isso envolve cultura, lazer, ciência, saúde física e mental. Em outras palavras, é uma riqueza holística, que beneficia todo o ser.
Torna-se necessário, para todo postulante a educado financeiramente, ir além dos conceitos impostos pela nossa sociedade capitalista e consumista, vislumbrando um futuro que se impõe cada vez mais: a redução drástica do trabalho físico e aumento do trabalho intelectual, gerando desemprego em massa a não ser que se reduza a jornada de trabalho para, pelo menos, a metade, como já previu Keynes no início do século passado. As fontes de riqueza estão mudando, as moedas tornam-se virtuais, antigas práticas econômicas voltam com outras roupagens e devemos estar preparados para entrarmos nesse admirável mundo novo e aproveitarmos as suas oportunidades de geração de riqueza.
Sucesso a todos!