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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O creme cracker, o suco de laranja e a riqueza

É
comum nas biografias dos grandes empreendedores a origem humilde e as dificuldades que tiveram para crescer na vida. Também é bastante comum a presença na vida dessas pessoas de um mentor, tutor, presencial ou não, que transmitiu valiosos conhecimentos que fizeram a diferença em suas carreiras. Acredito que aconteça com todas as pessoas, pois também acontece comigo.
Nessa semana das crianças estava relembrando meus tempos de escola primária no Recife. Uma das coisas que mais me marcaram nessa época era o lanche que eu levava pra escola. Eram meados da década de 1970, ainda sob o governo militar, todas as escolas tinham por hábito no início das atividades o hasteamento da bandeira e o entoar do Hino Nacional Brasileiro. Meu pai era funcionário público e sempre se esforçou para que eu e meu irmão tivéssemos a melhor educação. Já naquela época, estudar em colégio particular era privilégio dos mais abastados e o ensino público estava decadente.
Eu tinha uma lancheira plástica que continha uma garrafa para suco e espaço para o lanche. Geralmente, meu lanche se resumia a suco de laranja e alguns biscoitos creme cracker besuntados com manteiga. Apesar de já existirem garrafas térmicas - minha mãe tem uma de café que é mais velha do que eu - ainda eram raras e caras as lancheiras que vinham com esse tipo de garrafa. O colégio onde eu estudava tinha lanchonete com geladeira: poderia pedir à servente para manter minha garrafinha de suco refrigerada. Mas como eu era ainda mais tímido do que sou hoje, não tinha coragem nem iniciativa para fazê-lo. Resultado: enquanto meus colegas mais abastados compravam lanche e bebiam refrigerantes gelados, eu me contentava com meu suquinho quente e os biscoitos creme cracker.
Em anos de inflação galopante e dificuldades de se guardar dinheiro, minha família vivia de maneira modesta, mas não nos faltava nada de essencial. Entretanto, meu sonho de consumo naqueles tempos era poder comer biscoitos recheados. Fazia uma festa quando meu pai comprava uma caixa de biscoitos sortidos da Sagres. O desejo era tanto que, quando comecei a trabalhar, uma das primeiras coisas que comprei com o vale alimentação que a empresa me fornece foram justamente os biscoitos recheados!
Na minha adolescência, meu pai resolveu realizar um sonho de juventude e abrir uma gráfica. Ele me colocou como um dos funcionários, dizendo "um homem que conhece uma profissão não morre de fome". Passei 20 anos com a gráfica, cursei faculdade, fiz cursos profissionalizantes até que resolvi prestar concurso público, 16 anos após a morte do meu pai. Com tamanho incentivo que recebi dele para estudar e trabalhar, posso dizer que conheço mais de 10 profissões.
Hoje em dia, com inflação muito mais controlada do que há trinta anos atrás, consumir é trivial para a maior parte das crianças, mesmo aquelas de famílias dependentes do Bolsa Família. Minha filha, por exemplo, vive cercada de um nível de conforto que eu não sonharia ter naqueles tempos bicudos. E, com as tecnologias atuais, ela tem acesso a diversos tipos de informação que podem levá-la mais rapidamente à geração de riqueza. Certamente ela não precisará tomar suco de laranja quente e comer creme cracker com manteiga, mas a incentivo a agradecer às coisas corriqueiras que realmente são importantes: ter o que comer, vestir, onde morar...
O que vivi na minha infância e adolescência certamente moldaram minha personalidade e agradeço muito tudo o que passei. Se eu gostaria que tivesse sido diferente? Com certeza, especialmente durante a adolescência e início da juventude, onde eu poderia ter direcionado melhor a minha vida. Mas creio que "tudo vem no seu devido tempo", quando estamos realmente preparados para dar o salto qualitativo em nossas vidas. Meu pai não teve tempo de me preparar suficientemente: morreu quando eu tinha 16 anos. Mas minha filha terá o acompanhamento necessário desde cedo. Ela terá a opção de conduzir a própria vida de maneira mais consciente e responsável, ela poderá escolher entre o creme cracker e o biscoito recheado. É o mínimo que posso fazer por ela.
Não importa o quão difícil tenha sido a nossa vida, sempre temos a capacidade de (re)começar no momento presente. As lições do passado devem servir de combustível para a locomotiva do sucesso que está sendo construído no agora. Como educados financeiramente, devemos aprender sempre com os nossos erros e limitações na busca de corrigi-los e superá-los. Somente assim podemos honrar os esforços daqueles que vieram antes de nós e prepararam os caminhos para que pudéssemos trilhá-los.
Sucesso a todos!