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domingo, 20 de outubro de 2013

Mesada: educação ou punição?

N
o artigo anterior, Marcelo colocou seu ponto de vista sobre as chamadas "Regras da Mesada", onde os pais punem os filhos através de descontos em suas mesadas. Neste artigo, eu coloco um segundo ponto de vista, explicitando algumas similaridades com o ocorre no seio da sociedade brasileira.
Tendo como premissa que a Educação Financeira também ensina cidadania e apresenta de maneira prática a dinâmica financeira da sociedade em que vivemos, poderemos considerar que a mesada, para as crianças, represente o salário dos adultos: é pago regularmente, por força de algum tipo de contrato social, registrado ou não, sofre com as oscilações monetárias vigentes, podem ter alguma correção em determinado período de tempo e representa remuneração por uma atividade exercida, visando ao pagamento de gastos pessoais.
As "regras" do exemplo, com caráter punitivo, podem ser encontradas nas relações de trabalho: faltar à escola ou ao curso de inglês é semelhante às faltas ao trabalho, respeitando-se as devidas proporções e considerando que em ambos os casos se trata de quebra de uma relação de confiança entre as partes, pois os pais têm custo com a educação dos filhos. Um empregado que falta ao trabalho sem uma justificativa plausível sofre punição pecuniária, desconto em folha do dia não trabalhado, que é muito semelhante ao desconto realizado pelos pais na mesada do exemplo. Fora isso, existem outros aspectos punitivos complementares, como perda de alguns direitos (folga remunerada, prioridade em processos seletivos internos, etc.), o que corresponderia a outras punições que os pais aplicam complementarmente - ficar de castigo, perda do direito de sair para ir a uma festa ou outro evento familiar, etc.
Em entrevista dada ao UOL, o juiz que criou o método afirma que não resume a relação com os filhos a um procedimento monetarizado. O diálogo e as demonstrações de afeto dos pais precisam fazer parte do processo educacional dos filhos, como bem defende Álvaro Modernell. Eu complementaria com presença qualitativa - pais sempre presentes nos momentos mais importantes para os filhos, com qualidade no relacionamento - e afirmação positiva - pais que não se desautorizam entre si e que não assumem "dois pesos, duas medidas", mantendo um posicionamento firme diante das exigências ou reclamações dos filhos.
Em relação ao método em si, considero como principal falha o fato das regras terem apenas o caráter punitivo, deixando de lado outra poderosa ferramenta educacional, que é a premiação. As regras preveem apenas a ocorrência do comportamento esperado pelos pais, mas não incentivam a iniciativa, a inovação e a criatividade das crianças. Na sociedade são várias as formas de premiar os cidadãos por determinados comportamentos que superem o esperado, ou que conduzam a uma aceleração/antecipação de comportamentos esperados: descontos em impostos/tributos, deságio em prestações pagas antecipadamente, premiações propriamente ditas em dinheiro ou por meios meritocráticos, entre outros.
Se, além de participar do curso de inglês assiduamente, a criança conseguir excelentes notas e receber distinção dos professores, qual o reconhecimento dos pais nesse caso? Apenas um tapinha nas costas ou um "não fez mais que a obrigação"? Esse é um dos principais fatores que barram a busca à inovação e ao uso da criatividade na maioria das empresas brasileiras, especialmente no setor público. "Você é pago para trabalhar, não para pensar" é um velho bordão conhecido por funcionários de diversos segmentos e que, felizmente, está deixando de existir. Entretanto, o incentivo precisa vir "de berço". O gênio, o empreendedor, o inovador, o inventor não nasce feito; ele é construído no dia a dia, desde o nascimento. Cumpre aos pais dar o devido direcionamento inicial.
Também sinto falta nas tais regras o direcionamento que se deve dar ao dinheiro recebido. Talvez esteja fora do escopo do autor, mas considero igualmente importante ensinar aos filhos as bases da educação e da independência financeira, especialmente conceitos como os do consumo planejado, da gratificação adiada - que nessa etapa da vida cabe melhor do que já na fase adulta, pois não existem necessidades prementes por consumo de artigos caros como automóveis, imóveis, etc. - e da cultura da poupança.
Portanto, não existe receita pronta para as regras de uma mesada, ou se elas devem mesmo existir, mas é importante levar em consideração os valores imateriais que deseja transmitir aos seus filhos, de modo que a mesada não seja apenas uma oferta pura e simples de dinheiro, mas uma lição de cidadania, de política, de organização social e especialmente de liberdade para pensar e agir em sociedade.
Sucesso a todos!