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domingo, 28 de julho de 2013

A economia da arte e a arte da economia


C
ertamente o leitor já ouviu falar de obras artísticas vendidas a cifras acima de sete algarismos ou de artistas plásticos que passaram do anonimato para o sucesso de maneira quase milagrosa. Um exemplo conhecido, recente e brasileiro é o do artista pernambucano Romero Britto, cujos quadros coloridos ganharam repercussão internacional (e logo depois nacional, e não o contrário). Eu mesmo me perguntava porque imagens aparentemente tão infantis ganharam tanta repercussão, quando muitos outros artistas de qualidade técnica superlativa permanecem no anonimato e, pior, muitas vezes abandonam a arte para sobreviver. O economista e colecionador Don Thompson explica.
Em seu livro "O Tubarão de 12 Milhões de Dólares: a curiosa economia da arte contemporânea" (Bei Editora), o autor tenta fazer um retrato do mundo reservado, de glamour e bilhões em negócios, das galerias badaladas, dos galeristas espertos e dos colecionadores mais espertos ainda. Em verdade, o mercado de arte funciona de maneira similar ao mercado financeiro: as galerias são as bolsas de valores, os leilões como os da Sotheby's funcionam similarmente às vendas de ações no mercado. E o que é mais impressionante: tanto no mercado de ações como no mercado da arte, o que valoriza as mercadorias, sejam ações ou obras de arte, é a marca!
O livro de Don Thompson usa como exemplo a ascensão do artista britânico Damien Hirst, autor do "tubarão" aludido no título do livro e um dos artistas plásticos mais ricos do mundo. Uma de suas mais famosas obras, um tubarão tigre de cinco metros de comprimento conservado num tanque de vidro cheio de formol, foi arrematada em 2004 pelo colecionador americano Steve Cohen pela quantia já citada. Na época, foi considerada a maior transação no mercado de arte por uma obra de um artista vivo. O que levaria uma pessoa a adquirir uma obra dessa natureza por esse valor extraordinário?
Segundo Thompson, existem alguns fatores fundamentais. Um deles é o apoio de um mecenas importante e com grande habilidade em marketing. No caso de Hirst, quem fez esse papel foi Charles Saatchi, dono de uma das galerias mais importantes da Inglaterra e maior colecionador de arte do mundo. O segundo ponto é a sagacidade do artista, especialmente na forma de apresentar suas obras: Hirst costuma dar nomes pomposos a suas instalações, o que é uma boa ferramenta de marketing. No caso do tubarão, ele foi batizado como "A impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo".
A influência de Saatchi na carreira de Hirst é imensa. Sendo um dos sócios da Saatchi & Saatchi, uma das maiores agências de publicidade da Inglaterra, Charles Saatchi levou para o mundo dos negócios em arte a expertise em marketing e publicidade. Também utiliza de estratégias semelhantes às do mercado de ações, sendo considerado uma espécie de Warren Buffett do mercado de arte mundial. Uma dessas estratégias é adquirir obras de artistas iniciantes, quando os valores são baixos, alavancar o nome desses artistas no mercado e revender as obras adquiridas no auge da valorização dos mesmos.
No caso de Romero Britto, a alavancagem aconteceu pelas mãos de Michel Pierre Roux, fundador da Crillon Importers, representante americana da sueca Absolut Vodka. Roux é conhecido por impulsionar a carreira de artistas da vertente pop art através das chamadas "Absolut Art Ad Campaign". Além de Romero, artistas como Ron English e George Rodrigue passaram a ser amplamente conhecidos por terem participado da campanha.
Observa-se, portanto, que no mercado atual de artes, não importa muito a habilidade artística - Hirst vendeu centenas de quadros com fundo branco e bolinhas coloridas em disposições e tamanhos variados entre US$ 53.000 e US$ 3,5 milhões cada - o material empregado - Chris Ofili, colega de Hirst no grupo chamado Young Britsh Artists, pinta usando fezes de elefante - ou mesmo se a obra é feita pessoalmente pelo artista - os quadros de bolinhas de Hirst não foram feitos por ele e sim pelos seus vários assistentes, assim como acontecia com parte das obras de Leonardo da Vinci. O que importa é o nome que assina as obras (marca) e quem mais as possui (marketing).
E para o educado financeiramente, qual é a lição? Que o mercado de artes é muito mais parecido com o mercado de ações e mercadorias do que se imagina; e que é possível ser um Charles Saatchi aqui no Brasil, uma vez que o mercado local é bastante incipiente. Romero Britto só se destacou depois que foi morar nos Estados Unidos. Portanto, para quem é artista e deseja viver - e enriquecer - com sua arte, é importante ver seu dom como um negócio - esqueça a ideia romântica da "arte pela arte", tocar sua carreira como uma empresa, exercitar constantemente o desenvolvimento de sua network friendship e associar-se a pessoas que possam efetivamente alavancar sua carreira artística.
Já quem deseja começar uma vida de colecionador/investidor de arte, recomendo a leitura deste artigo da Superinteressante, do livro de Don Thompson e a visita a galerias de arte e a sítios de artistas nacionais. A network aqui também é importante, para ganhar conhecimento dos colecionadores mais experientes. E lembre-se da regra de Saatchi: compre no início da carreira, venda no auge.
Sucesso a todos!