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domingo, 26 de maio de 2013

Bolsa Família, espírito de dependência e o poder de um boato


N
o fim de semana passado os telespectadores brasileiros assistiram ao tumulto generalizado ocorrido por conta de um boato, espalhado pela Internet, de que o Bolsa Família seria suspenso, que haveria um bônus pelo Dia das Mães e que os saques só poderiam ser feitos até o sábado passado (18/05). Tais cenas mostram claramente o espírito de dependência criado pelo benefício e o estrago que um boato pode provocar no imaginário coletivo.
Paul Joseph Goebbels (1897-1945), ministro da propaganda nazista na época de Hitler, destilou uma frase que é a essência de todo tipo de publicidade, propaganda e notícia veiculadas ainda em nossos dias: "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade". Neil Gaiman, na graphic novel Orquídea Negra, coloca uma sentença semelhante na boca de Batman: "O que todo mundo sabe não é verdade. O resto é simplesmente não confiável". Estas frases enfatizam o posicionamento científico em relação a fatos e vivências de outras pessoas, onde estes não podem ser considerados verdade pelo indivíduo enquanto não forem comprovados por ele mesmo.
Conforme as informações passadas pela imprensa, um boato sobre a suspensão do Bolsa Família e pagamento de um bônus, com limite de prazo para pagamento até o último sábado, se espalhou e afetou especialmente 12 estados do Norte e Nordeste brasileiros, causando tumultos e quebra-quebra. Devido a essa pressão, a Caixa Econômica Federal, com autorização do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, liberou pagamentos para todos os beneficiários do programa, independente do calendário de pagamentos oficial. Na segunda-feira seguinte, os pagamentos voltaram ao calendário normal. Como resultado do ocorrido, quando em períodos normais os saques ficam numa média de 200 mil nos sábados, no dia 18 passado foram feitos cerca de 900 mil saques! Ou seja, uma mentira foi repetida 900 mil vezes, tornando-se verdade.
Esse episódio nos sinaliza alguns pontos preocupantes: a) a dependência de grande parte da população brasileira, especialmente nas regiões acima do Trópico de Capricórnio, aos programas sociais do Governo Federal; b) um boato, inclusive quando divulgado por Internet e redes sociais, pode alcançar proporções e consequências gigantescas, mesmo entre aqueles que não possuem computador ou celular com acesso à Internet; c) a reação das pessoas, no que se refere ameaça de suspensão de um direito social, mesmo quando concedido e claramente de caráter temporário, é extremamente violento e incontrolável - e não estamos tratando de pessoas que passam fome.
É importante frisar este último aspecto: o Bolsa Família não é um programa com prazo de validade indeterminado. Tanto isso é verdade que a presidente Dilma Rousseff, ao lançar o programa Crescer, de microfinança urbana, visou inclusive o atendimento dos beneficiários do Bolsa Família para que, num determinado momento, pudessem se desvincular sem traumas do Bolsa. Outra evidência está na descontinuidade política advinda das eleições: a menos que se eleja o PT ad infinitum, é muito pouco provável que o programa se mantenha ativo sob a tutela de outro alinhamento político. Embora o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reivindique a paternidade do Bolsa Família, somente a partir do governo Lula houve a sua extensão à maior parte da população em situação de risco social, hoje atendendo cerca de 13 milhões de famílias. Com isso, tornou-se o carro-chefe dos governos petistas e principal arma eleitoral para sua manutenção no poder.
Portanto, levar Educação Financeira a todos os lares brasileiros é hoje um imperativo. É preciso o quanto antes que o nosso povo abandone o espírito de dependência ao governo ou a quaisquer outras formas de poder constituído. Um povo educado também não cai em armadilhas como este boato, que tinha o fim claro de provocar instabilidade social. Isso não foi obra de amadores: quem promoveu, sabia muito bem o que aconteceria e a dimensão dos danos. É preciso buscar alternativas sustentáveis e independentes de geração de riqueza e ascenção social. Poder ser dono do próprio nariz e não depender da esmola ou boa vontade de quem quer que seja é um objetivo a ser alcançado pelo educado financeiramente.
Dentro da perspectiva do futuro do trabalho, demonstrado por Domenico de Masi, a criatividade é fundamental para o enriquecimento e o desenvolvimento sustentáveis. Fugir do estigma do personagem Pescoço, da finada novela Salve Jorge - que vivia na indolência, sustentado pela mulher - utilizando o tempo livre para desenvolver formas criativas de geração de riqueza, é uma característica a mais para o educado financeiramente cultivar com zelo e perseverança.
Sucesso a todos!