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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Karnani e o paradoxo do (micro)crédito

Semana passada alguns colegas de trabalho que trabalham no setor de microfinanças estavam discutindo as declarações do economista indo-sudanês Aneel Karnani acerca do microcrédito, publicadas na revista Exame. A revista, como todo veículo de comunicação brasileiro, estampou em letras garrafais: “O microcrédito não acaba com a pobreza”. Analisemos com calma.
Na entrevista, Karnani destila seu ceticismo com o microcrédito, por considerar que este “romantiza a pobreza”. Diferentemente do que acredita Karnani, não é o microcrédito que romantiza a pobreza, mas sim a cultura política dos países em desenvolvimento.
É preciso ter em mente que, para estes países, a manutenção da pobreza e do analfabetismo é a manutenção do status quo político. Só assim é possível eleger pessoas descompromissadas com os interesses da população, que manterão o círculo vicioso. Uma população educada e remediada financeiramente é um risco para os interesses particulares de congressistas e outros ocupantes de cargos públicos.
Por outro lado, Karnani acredita que os pobres empreendem por necessidade e que o empreendedorismo é para quem é criativo, ambicioso e persistente. Isso pode até ser verdade, mas precisamos observar os fatos: o emprego assalariado no mundo está em queda. Novos postos podem ser gerados através de micro e pequenos empreendimentos, ainda que estes sejam motivados pela necessidade. Mesmo os que já são assalariados estão vendo no empreendedorismo uma maneira de aumentar suas rendas, auxiliar no orçamento doméstico, acelerar a realização de sonhos e até mesmo como uma satisfação pessoal. Portanto, afirmar que, pelo fato de 90% da população querer empregos elas não possuem potencial empreendedor é, no mínimo, miopia conceitual.
Karnani também aponta que 80% do microcrédito concedido é para aquisição de bens de consumo. Não é preciso microcrédito para isso: basta o crediário das grandes lojas de departamento para conseguir o mesmo efeito. O erro do autor aqui é colocar no mesmo saco o microcrédito para bens de consumo e o microcrédito produtivo orientado, que possui uma conotação bastante diferente. O primeiro foca a bancarização de uma parcela da população que é desprezada pelas instituições financeiras tradicionais. Já no microcrédito produtivo orientado, o crédito é concedido para empreendedores com negócios em funcionamento, os quais são acompanhados pelos assessores de crédito durante todo o ciclo do empréstimo, de maneira a evitar o desvio de recursos e a inadimplência. Este último tipo de microcrédito estimula a formalização dos pequenos negócios, a geração de emprego e o aumento da riqueza, além de ser um importante instrumento de Educação Financeira.
O alvo principal do discurso de Karnani é o Grameen Bank, criado pelo Nobel da Paz Muhammad Yunus. O economista alega que os países que mais adotam o microcrédito, segundo ele Bangladesh e Bolívia, permanecem pobres. Detalhe: Bangladesh é o país natal de Yunus e onde este criou o Grameen Bank. Por outro lado, elogia iniciativas como a brasileira, onde há, mais uma vez segundo ele, melhor distribuição de renda através do Bolsa Família – os paulistas de classe média “nordestófobos” devem ter odiado esta parte – e houve a geração de milhares de empregos (sic). O paradoxo está aí: o Bolsa Família estimula o consumo, pois, com o “dinheirinho do governo”, dá pra pegar aquele crediário para comprar a TV de LED para colocar no barraco. Este é um dinheiro de política social que não possui controle, nem é voltado para atividades produtivas. E os empregos criados no país ainda estão longe de erradicar a pobreza. Para fechar com chave de ouro, declarar que a geração de empregos na China a ajudou a combater a pobreza foi a frase mais infeliz de Karnani. É consensual o fato de que a China oferece trabalho escravo, empregando mulheres e crianças em condições desumanas.
Resumindo: para gerar uma declaração de efeito, Karnani escolheu como bode expiatório uma ferramenta econômica que pode auxiliar no combate à pobreza, incentivando a produção e a geração de empregos. Claro que o microcrédito, sozinho, não tem esse poder. Políticas públicas de estímulo ao empreendedorismo, serviços públicos de qualidade, redução de impostos e combate ao desperdício e à corrupção são companheiras do microcrédito nessa batalha. Por parte do cidadão, o espírito empreendedor, aliado a uma boa educação financeira, podem reforçar este contingente de esforços coletivos para promover a verdadeira erradicação da pobreza no país.
Sucesso a todos!