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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A medida da filantropia

Nas poucas vezes que assisto aos programas de TV dominicais, geralmente me interesso pelos quadros filantrópicos, aqueles em que a produção do programa recebe cartas pedindo para reformar casas e/ou melhorar a qualidade de vida de algum telespectador. Acho muito interessante a reação das pessoas envolvidas direta ou indiretamente nestes “atos de caridade”, bem como a questão da espetacularização dos supostos bons atos.
Obviamente, em toda essa suposta bondade dos apresentadores de TV e seus patrões, há uma grande jogada de marketing que movimenta milhões de reais a cada programa.
A cada momento em que se conta a história do beneficiário da caridade, explicita ou implicitamente aparecem as logomarcas das empresas patrocinadoras do quadro ou da doação específica.
Até aí, nada de mais: acho importante e justo que as empresas promovam seus produtos e imagem através de ações como essas, numa tendência muito semelhante a das empresas sociais, que abordei aqui. A questão que levanto é: até que ponto um ato de caridade como este está realmente beneficiando seu recebedor?
Certo domingo assisti a um desses quadros, onde foi mostrado um retirante nordestino que vivia em condições subumanas com sua família na cidade de São Paulo. O programa ofereceu ao cidadão o retorno dele de volta à cidade de origem, com uma casa totalmente equipada com piscina desmontável e outros mimos. A notícia correu na pequena cidade do interior do Ceará e o beneficiário foi recebido como herói. Enquanto o quadro era mostrado, eu me perguntava: “como este rapaz irá sustentar sua família com uma casa tão repleta de coisas, e onde terá despesas que talvez não tivesse em São Paulo, como conta de água, luz, gás, etc.? O que vai garantir que ele não se sentirá obrigado a voltar a tentar a sorte em São Paulo?” Entretanto, no fim da atração, apareceu um representante da prefeitura da cidade anunciando que o retirante teria um emprego garantido naquela administração. Pensei comigo mesmo: “Menos mal...”
Em outro programa, um rapaz sulista, que com os filhos trabalha em um show circense, pediu a reforma da casa dos pais, feita de madeira e com mais de 50 anos de existência. Devido às condições da casa, não foi possível reformar, então construíram outra nova, de alvenaria. Neste caso, fizeram uma casa fantástica, com tudo o que há de mais moderno, inclusive sistema de segurança com circuito interno de TV. Neste caso, ficou a pergunta no ar: e as despesas extras de energia e água, quem vai arcar? Mesmo que o filho ajude nos custos, não teria sido melhor oferecer algo mais simples, que ficasse mais na realidade de vida deles?
Diz o ditado que “a cavalo dado, não se olha os dentes”. Entretanto, um caso como este último pode se tornar um verdadeiro “cavalo de Tróia”, “presente de grego”. Embora a vida ganhe uma qualidade acima do esperado para aquelas famílias humildes, o custo disso também pode ficar muito acima da capacidade dos mesmos, exceto se for oferecido juntamente alguma forma de aumentar a renda destas famílias. É como ganhar na MegaSena sem ter a mínima ideia do que fazer com tanto dinheiro junto. Com a mesma facilidade com que se ganha, pode-se perder tudo.
Por isso, advogo o pensamento da riqueza sustentável, a qual é construída pela educação para a riqueza – e onde se inclui a educação financeira. Para sermos ricos, precisamos saber o que é riqueza – que é bem diferente de ter dinheiro ou posses – e prepararmo-nos para possuir bens sem sermos possuídos pelos bens. Ser rico é muito mais atitude que propriedade. Abordarei mais sobre o assunto num próximo artigo.
Não acho errado que as pessoas procurem os programas de TV ou joguem nas loterias para tentarem a sorte e, quem sabe, mudarem radicalmente de vida. Na verdade, quem consegue chegar lá estão banhadas de muita sorte. Contudo, mais difícil que conseguir realizar o sonho é mantê-lo. E pra isso não basta só contar com a sorte. É preciso um forte alicerce psicológico e ideológico para manter-se motivado diante de adversidades que podem ocorrer quando se muda o padrão de vida. Esse alicerce não é oferecido pelos programas de TV, que visam unicamente promover empresas e produtos.
Sucesso a todos!