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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Guy Fawkes, Hippies, Primavera Árabe e os Indignados do século XXI

A humanidade passa por movimentos cíclicos, como aprendemos na escola. E, ao observarmos direito, perceberemos sempre uma repetição de questionamentos e de desejos coletivos, mesmo que com outras cores e intensidades. Como disse o naturalista Lavoisier, “(...) nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.
Nosso leitor e colega Leonardo Magnavita nos apontou o recente movimento dos Indignados, também conhecido como “Ocupe Wall Street” e perguntou-nos nosso pensamento a respeito.
Após me inteirar do assunto e ver uma reportagem na TV sobre os manifestantes que acamparam sob o Viaduto do Chá, em São Paulo, lembrei-me imediatamente do movimento de Contracultura da década de 60 e do que comentou um professor meu da faculdade de Comunicação sobre o assunto: de que teria dado certo, se os hippies não tivessem focado numa “sociedade alternativa” àquela que questionavam. Ou seja, ao querem deixar a sociedade “careta” para criarem uma outra, acabaram sendo absorvidos como modismo pela primeira.
A fim de contextualizar o assunto para quem, como eu, andou meio alheio, “Ocupe Wall Street” é um movimento iniciado e organizado através das redes sociais existentes na Internet, inspirado nos levantes populares ocorridos em diversos países do Oriente Médio que levaram à queda de pelo menos três governos e a morte de um ditador, Muanmar Khadafi. Ou seja, “Ocupe Wall Street” é a versão do resto do mundo para a “Primavera Árabe”. Seu objetivo é comover a opinião pública mundial para a mudança nos paradigmas de política econômica adotada nos países capitalistas, bem como por reformas políticas e sociais em larga escala. Em pelo menos três países – Itália, Austrália e Grécia, que já vinha em clima de guerra civil desde a adoção de medidas impopulares pelo governo grego para tentar evitar um colapso financeiro no país – o movimento entrou em confronto com forças policiais e ocorreram atos de vandalismo. Mas, em geral, o movimento é pacífico e teve adesão forte nos países atingidos diretamente pela crise econômica mundial.
No Brasil, a adesão não foi significativa, tendo em vista a privilegiada situação econômica e as fortes chuvas que abateram São Paulo na última semana. Também faltou foco aos Indignados tupiniquins: o protesto se referia desde a questão da homofobia até a crítica aos partidos políticos. Mas o que me chamou mesmo a atenção foi o aparecimento de máscaras de Guy Fawkes (inclusive na capa da Veja desta semana), tradicionalmente usadas na Noite das Fogueiras (5 de novembro), um festejo popular inglês, e tornadas mundialmente conhecidas pela versão cinematográfica de “V de Vingança”, baseada na graphic novel de Alan Moore. A grosso modo, Fawkes foi uma espécie de Tiradentes da Inglaterra, só que tratado como Judas (traidor).
E dessa salada de frutas toda, o que se tira de conclusão? Diferentemente de movimentos ocorridos no século XVI, no caso de Fawkes, e no século XX, no caso dos hippies, a deflagração de movimentos populares como a Primavera Árabe e “Ocupe Wall Street” possui uma poderosa arma de comunicação, que são as redes sociais baseadas na Internet. Sua organização e difusão viral ocorrem praticamente em tempo real, permitindo que aconteçam simultaneamente em diversas partes do planeta. Outro fator a ser observado é que, apesar dos protestos terem motivações diferentes em cada país, são um sinal importante para governos e atores do mercado financeiro de que a crítica ao capitalismo como o conhecemos não desapareceu com a queda da União Soviética. E os manifestantes tem os fatos a seu favor, pois a crise é fruto de políticas econômicas defasadas que atingem diretamente os 99% da população mundial, para engordar os bolsos do 1% restante, conforme defendem os organizadores. Um outro ponto a ser observado é a descrença nos partidos políticos convencionais, com participação maior dos partidos nanicos de ultra-esquerda.
Movimentos como estes provocam instabilidade nos países onde ocorrem com maior força, o que preocupa dos investidores. Por outro lado, somente a constância das mobilizações pode levar a mudanças sensíveis, como o que ocorreu na Tunísia, Egito e Líbia. Para isso, as redes sociais são, mais uma vez, fonte de incentivo. Já existe um evento registrado no Facebook para relembrar Guy Fawkes no dia 5 de novembro próximo, com a clara intenção de complementar o movimento “Ocupe Wall Street”. É a globalização de um evento inglês, com tom de protesto mundial.
Nenhuma reforma social, política e econômica acontece da noite para o dia, mas, como defendia Marx, começa dos movimentos das massas, hoje mais conscientes que no passado. O Materialismo Histórico cabe bem para explicar estes dias caóticos, mas ainda estamos longe de uma “ditadura do proletariado” ou da ascensão de governos socialistas ou comunistas, no sentido defendido pelo autor de O Capital. O capitalismo precisa se reinventar mais uma vez, deixando de lado o mero acúmulo de capital de lado para dar uma resposta às demandas sociais cada vez mais crescentes em todo o mundo.
Sucesso a todos!